terça-feira, 27 de outubro de 2009

Reconstruir...

Certa vez, um homem chegou numa cidadezinha disposto a construir uma vida ali. Os moradores daquele amistoso lugar logo se ofereceram para ajuda-lo a se instalar na cidade. Foram-lhes dadas madeiras, tijolos e argamassa, e o homem construiu sua casa com aquilo que julgava haver de melhor. Passados alguns anos, mutos anos, eis que um dia um viajante de um país bem distante passa pela sua cidade. Este chegou muito alegre e conversador, e falava sobre as coisas que haviam em seu país. Os que o escutavam o faziam sem muita empolgação, pois aquele viajante muito alegre e aparentemente inteligente falava sobre coisas que - aos olhos das pessoas daquela cidade - não podiam existir!
"Como pode um forasteiro chegar dizendo que existem frutas mais doces que as nossas, madeira mais resistente, ornametos mais bem acabados e ouro mais puro que os nossos? que desaforo!"
Acontece que quele homem, que havia muito tinha se mudado para aquela cidade, se deixou convencer pelo que dizia o estrangeiro. Por que o melhor do mundo tinha que ser necessariamente aquilo que lhe foi apresentado por aqueles bons homens da pequena cidade?
Para a surpresa do homem, as pessoas da cidade começaram a ignora-lo desde que começou a aceitar as ideias do estrangeiro, acontece que este não só lhe falava das diferenças entre as coisas existentes entre a pequena cidade e o país dele, mas também se dispôs a ofertar-lhe de toda a sorte de coisas existentes em sua nação.
Havia regreessado a alguns anos ao seu país de origem, quando então retornou novamente o forasteiro, mas dessa vez trazendo consigo madeira, ouro, enfeites e uma variedade de coisas produzidas em suas terras. Como havia prometido, presenteou com elas o homem que havia muito morava na cidade, que por sua vez não soube o que fazer com aquelas coisas. Tinha sua casa construida e adornada com o que lhe foi cedido pelo moradores daquele lugar, sabia que funcionava para o básico, embora o presente lhe possibilitasse desfrutar de uma qualidade de vida melhor. O homem percebeu que não era fácil destruir aquela casa que havia construido fazia tanto tempo, e reconstruir uma com material do qual não tinha certeza da procedência nem da qualidade. Era mais que bater com o martelo e destruir paredes, era desconstruir algo que ele conhecia em favor de algo novo e desconhecido...
Por fim, este homem percebeu que aquela casa antiga em que vivia, apenas estava de pé por um esforço enorme e constante dele para que ela não desabasse, e estudou a madeira nova, testando a resistência dela e percebendo que se tratava de bom material, resistente e de qualidade (além de mais belo). Chegou então o momento de reconstruir, e o homem se lançou a derrubar a sua casa diante dos olhos atentos e acusadores das pessoas da cidade. Batia, chutava e martelava, até que não mais restava pedra sobre pedra. Lançou-se então a reerguer sua casa, com sua madeira de qualidade, revestindo ela com o mais nobre estofo, e a decorando com os mais belos (e até então vistos naquela cidade) ornamentos. Nunca houve naquela cidade casa mais bela!
Mas a lingua do povo é o diabo, e logo começaram os falatórios. Murmuravam que a casa poderia cair, pois havia sido feita de material ruim. Disseram que ele não era digno de estar no seio daquela comunidade, tendo em vista que ele trocou os costumes e o bom senso pelas novidades trazidas pelo forasteiro. Mas, em meio a todas as coisas ditas pelas pessoas da cidade, aquele homem - que havia muito morava naquela cidade - nunca havia experimentado tamanha satisfação em sua vida, e agora ele sabia que a vida oferecia mais do que se podia contabilizar naquela pequena cidade, que a verdade que alguém lhe oferece como absoluta, nem sempre o é, e que a verdade só pode ser conhecida quando a buscamos, quando nos dispomos a conhecê-la, quando experimentamos o novo, quando testamos as situações... e quando a encontramos nos deparamos com uma dura escolha: Permanecer na vida como estamos, desacreditando da verdade em prol dos costumes que nos mantém acorrentados, nos impedindo de viver algo maior e melhor; ou derrubar as casas das nossas antigas convicções em favor da verdade que há de nos libertar de conceitos antigos, e nos propiciar uma vida ainda melhor que a que possuimos.
Qual das escolhas é a mais sensata? Será que nós derrubariamos nossas antigas convicções para viver uma verdade irrefurtável e satisfatória?